quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Excerto do MUIMBU

#
o gusa gosta de comer
o sacrifício do bode

se o inhame está cozido
o gusa também aprecia

#
arrojado

toma a coroa e não usa
sobe os córneos dos carneiros

se te amam ai gusa
fazem do cortejo dos cães

o apelo que salva os pescoços

(MUIMBU – ANDRÉ CAPILÉ)


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

peripatético

desde a visão perdida o manco paladar
impõem-se substratos para a viagem do nada
podem os aviões jungidos soltos no ar
a justeza inadequada, a ceifa que carda

aqueles, menipos vácuos, cujos atalhos
vedados irradiam nenhum sol alguma lâmina
que à messe se contraponha em refolhos falhos
 – o ecoo da perdida contraluz abomina

os do horizonte caçados se lobo o espécime
o ser estrangido na cabeça das nuvens
se bobo o ser sereno se a calma –  das forjas

advém da visão o abismo o mar votivo sublime
decair das alturas em terra firme e nua
cujo manto o último sentido escorja


(oswaldo martins)

moção

para meus pais

toda palavra é possível em nós,
toda marinha do desassossego
as tormentas todas do mar e após
a ânsia, o perigo, o céu espesso;

toda palavra é possível no cais
do desembarque, onde nossas rugas
se rasgam pelas ruas sem que jamais
os passos indiquem calor e fuga

por isso busco o que buscam os homens –
porto nenhum de chegada – partida
circular em torno de um mesmo cais,

de um mesmo assombro; sobre os armazéns
sombra sombras nossas sombras fatídicas
do que queríamos e não somos mais.

(do lucidez do oco - oswaldo martins)

Os livros de 2017

Livros de prosa que mais me agradaram no ano de 2017

1 – Machado – Silviano Santiago
2 – A aranha negra – Jeremias Gothelf
3 – Pulso – Julian Barnes
4 – Urubus em círculos cada vez mais próximos – César Cardoso
5 – Um chão de Presas fáceis – Fernando Fiorese
6 – Contos – O. Henry
7 – A noite da espera – Milton Hatoum
8 – Os contos de Kolimá 1, 2 e 3 – Varlam Chalámov
9 – A gata, um Homem e duas Mulheres – Jun’ichiro Tanizaki
10 – O fogo – Henri Barbuse
11 – No seu Pescoço – Chimamanda Ngozi Adichie

 Livros de poesia que mais me agradaram no ano de 2017

1 – Trapaça – Marcelo Labes
2 – Despreparação para a morte – Roberto Bozzetti
3 – Poemas – Wislawa Szymborska
4 – I – Alexandre Faria
5 – Égloga da maçã – Affonso Ávilla
6 – Muimbu – André Capilé


Livros de teoria e crítica que mais me agradaram no ano de 2017

1 – Melancolia. Literatura – Luiz Costa Lima
2 – Genealogia da ferocidade – Silviano Santiago
3 – Diante da Imagem – Georges Didi-Huberman
4 – Heidgger e seu século Tempo do ser Tempo de História – Jeffrey Andrew Barash
5 - Mímesis e arredores - Luiz Costa Lima

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Carta aberta a Aldir Blanc

Prezado Aldir Blanc,

Escrevemos-lhe essa carta pública como manifestação do mais profundo respeito e da maior admiração que nutrimos por sua criação. Uma admiração que nasceu desde a primeira vez que ouvimos a sua letra de “O bêbado e a equilibrista”, na interpretação da saudosa e insubstituível voz. Mas por esse motivo já podíamos ter nos manifestado, publicamente, há muitos anos. Se só o fazemos hoje, é por um torpe motivo que mobiliza e inquieta nosso espírito cidadão.
Escrevemos para esclarecer que hoje, 06 de dezembro de 2017, a equilibrista caiu da corda bamba. Quem somos nós para trazer a público a obviedade dos tempos tétricos em que vivemos? Quem somos nós para alertar-lhe sobre a sistemática usurpação de direitos a que estamos sendo submetidos? Como poderá essa canhestra missiva tocar o ourives do palavreado? Falar de usurpação de direitos com Aldir Blanc é chover no molhado. Antes dos direitos trabalhistas, já lá se tinham ido os direitos autorais no Brasil, não é mesmo?

Mas é que dizem por aí as más línguas, paranoicas da conspiração, que em breve perderemos o direito de ir e vir, de expressar o pensamento e de cantar. Dizem que os chupões das manchas torturadas estão voltando flores de carne viva. Imagino até que esse papo deve te encher o saco, pois pra quem sabe que, há uma porrada de tempo, as rubras cascatas jorram das costas dos santos, nada de novo no front. Chutes na santinha e atentados terroristas nos terreiros são a repetição da história e das mentalidades que tuas canções deixam bem mapeadas.

Não somos dessas Marias vão com as outras, fica frio. Sem lenha na fogueira. Mas queríamos te assegurar que nunca é na pele que a tortura começa. É na língua. No apagamento dos sentidos e na transformação dos significados também se embarca na judiaria. Fiquemos atentos, que logo logo “Pra não dizer que não falei das flores” vira jingle de campanha de alistamento militar (lengalenga do padre Zezinho já virou faz tempo). Mas hoje quem caiu foi a nossa equilibrista. Dizemos nossa, porque gostaríamos mesmo de acreditar que tuas letras – essa em especial – fossem patrimônio público do povo brasileiro. E se fossem domínio público, que a canalha as usasse para nomear qualquer tipo de sordidez, ou mesmo que polícia federal designasse com um brinco de esmeralda verbal da tua lavra uma operação que se esmera em apagar a memória da anistia política.

E é este o motivo dessa carta. Ela, a equilibrista, não é nossa. Nem acreditamos – faça-nos crer que estamos certos – que o senhor tenha cedido os direitos para o uso da letra. Trata-se de sua propriedade. E essa é uma palavra que a lei entende muito bem no jogo neoliberal da usura e da escravização de corpos e mentes. Exija seus direitos e quem sabe isso nos facilitará lutar pelos nossos.

Desculpe-nos apenas por um motivo. Não estamos bêbados o suficiente para fazer irreverências para essa nova noite. Se é na língua que começa a tortura, nossa carne já dói. Mas se você enfrenta essa parada e recoloca a mocinha na corda bamba, prometemos, tomaremos um porre e continuaremos o show.


Alexandre Faria e Oswaldo Martins
TextoTerritório
Lugar para criação de textos; textos para criação de lugares.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

baudelairiana

vestida de negro infausta e tenebrosa ela passa com a bunda de fora balançando a carne da miséria chamam-lhe vaca pelas ruas das putas apupam, arrastam, beliscam e sobretudo com os instrumentos da tortura arrancam-lhe as unhas dos dedos com dermite

como desculpa dizem apenas era uma maria elvira qualquer a pequena nordestina que a nós todos expunha como os republicanos de merda que somos


(oswaldo martins)

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

como um soneto escuso

a câmera escura destrói sorrisos de gioconda com a pata direita rompe telas e os olhos que a viam tornam se pasmos o tempo escuso o papo é reto falta-lhe o jocoso pano de fundo por modificar os olhos vazados dos recegados vampiros do paraíso em atonia imagem inversa fotografia dos palácios domínio que ecoa na memória súdita das marinhas mercantes deste conde de olivares o cabeça d’alfinete a chamar de volta a velha rainha de copas e o jaguadarte



(oswaldo martins)

domingo, 15 de outubro de 2017

um, dois

para o felipe david rodrigues

1
a seguir, o bom caminho

estação de trem. plataforma vazia.
o trem passa. não para.
estação de trem. plataforma vazia.
câmara acompanha uma pessoa de costas. caminha em direção aos trilhos.
estação de trem. plataforma vazia.
trilhos. pessoa de costas deitada sobre os trilhos.
uma faixa canhestra cobre esta pessoa.
a câmara se aproxima da faixa. há palavras escritas, impossível lê-las.
o trem nunca vem.

2
prefere-se a imagem desalinhada de si mesmo

multidão. o trem não passa. estação abandonada.
ratos estão correndo nos trilhos
uma pessoa alinhada se desalinha. começa pelo cabelo.
multidão apressada olha para traz.
cada um inicia a arrumar os cabelos.
sobrepõem-se na tela pentelhos de homens e mulheres.

por fim pessoa desalinhada (a mesma) mostra o cabelo do sovaco.

(oswaldo martins)

no ralo

1

como ele não lhe pagava
os jantares do restaurante
fechou-lhe a porta e as coxas

ele foi pra rua
onde pelo corpo
e pelo o amor
pouco se paga


2

afeiçoara-se às putas
não lhe cobravam o amor
bastavam umas cervejas
que às vezes elas também traziam
  

3

tenta apagar da memória
os corpos em movimento
a fazer amor
como ela gostava de dizer
ou a foder como às vezes lhe pedia

elesbão pinto ribeiro

13/10/17

terça-feira, 3 de outubro de 2017

desimitação de aretino

abrandai-vos, dona, o coração funesto
que um valor mais alto
de caralho e cona feito
há de levantar-te a sisudez
além, é claro, que a saia


abrandai-vos, dona, os maus lençóis
e deitai na pérsia sibéria
em marte ou inglaterra
em convite franco e desabusado
gesto para a foda
que depois se vai

abrandai-vos, senhora, a pena
de um teso corpo
com a lânguida língua
de entortar caveiras
e expulsar a quem soeiro
a vossa cona inveja


(oswaldo martins)